Ex-prefeito denuncia ligação de delegado e deputado com agiota

O Estado do Maranhão
O ex-prefeito do município de Serrano do Maranhão, Vagno Pereira, conhecido como Banga, fez, ontem, em entrevista à Rádio Mirante AM, novas denúncias que apontam o empresário Gláucio Alencar Pontes Carvalho como líder da rede de agiotagem que financiou a morte do jornalista Décio Sá. O ex-gestor municipal também mencionou o delegado de Polícia Federal Pedro Meireles, investigado por suposta ligação com a quadrilha, e o deputado estadual Raimundo Cutrim (PSD), citado no depoimento do assassino confesso do blogueiro como suposto “principal mandante” do crime.
Vagno Pereira concedeu entrevista (por telefone) ao radialista Roberto Fernandes, apresentador do Programa Ponto Final, e começou sua participação afirmando que a sua prisão feita pela Polícia Federal, em março de 2010, durante a Operação Rapina V, teria sido uma espécie de “armação” elaborada pela rede de agiotas, interessada em cobrar uma dívida de R$ 200 mil. O débito, ainda de acordo com o Banga, havia sido contraído pelo ex-prefeito daquela cidade, Leocádio Rodrigues, do qual era vice, antes de ser cassado em decorrência das investigações encabeçadas pela própria PF, que revelaram saques indevidos de R$ 3,1 milhões.
“Gláucio me convidou para vir a São Luís, almoçar com ele, em um restaurante. Atendi ao convite, e na oportunidade ele disse que a Prefeitura de Serrano devia a ele R$ 200 mil pelo financiamento da campanha eleitoral do então prefeito Leocádio. Eu disse que não tinha como pagar um débito que não era meu, pois não havia assumido nenhum compromisso financeiro com ele, apesar de ter sido o vice-prefeito eleito. Ele [Gláucio] me ameaçou, dizendo que eu tinha que pagar de qualquer maneira, e quando eu disse que a Prefeitura sequer tinha cheques, ele me garantiu que possuía em seu carro, mas eu me neguei a assinar”, denunciou Banga.
Após se negar a pagar a dívida, Banga foi preso no dia 19 de março de 2010 pela Polícia Federal, segundo ele, sem ordem de prisão, em uma estrada vicinal do município quando estava em companhia da filha de 5 anos. A operação, segundo o ex-prefeito, foi liderada pelo delegado Pedro Meireles, ouvido nesta semana pela Superintendência Estadual de Investigações Criminais (Seic), no inquérito que investiga a morte de Décio Sá. Banga permaneceu preso por 45 dias e foi afastado do cargo, assumido pelo presidente da Câmara de Vereadores, Hermínio Pereira, conhecido como Hemininho, filho de Leocádio Rodrigues, cassado por improbidade.
De acordo com Banga, sua prisão foi uma forma de a quadrilha garantir o pagamento do débito deixado na Prefeitura. “Se eu não tivesse sido preso, com certeza estaria morto como o jornalista [Décio Sá], que denunciou o esquema e foi assassinado por eles. Foi tudo uma armação para que Hermininho assumisse, e passasse a ser a pessoa responsável por quitar todo esse débito”, explicou o ex-prefeito. “É muita coincidências o fato de o advogado de Hermininho, Ronaldo Ribeiro, ser o mesmo do delegado federal e que o deputado aliado dele é Raimundo Cutrim”, lembrou Banga.
O nome do deputado estadual surgiu no inquérito depois que o depoimento do pistoleiro paraense Jhonatan de Sousa Silva, de 24 anos – assassino confesso de Décio Sá – “vazou” e foi publicado nos principais blogs de notícias do estado. Na oitiva do executor, a denúncia de que o deputado teria mandado matar o jornalista é feita três vezes pelo pistoleiro, a partir de um diálogo com um dos intermediadores do crime, o empresário José Raimundo Sales Chaves Júnior, o Júnior Bolinha, de 38 anos, que afirmou que o jornalista “tinha que morrer por conta da língua dele, pois ele falava muito e prejudicava muita gente”.
Divulgação – Quase uma semana depois de o depoimento do assassino confesso ter vazado na internet, Raimundo Cutrim resolveu usar a tribuna da Assembleia Legislativa do Maranhão para lançar ofensas ao secretário de Segurança Pública, Aluísio Mendes. Na ocasião, o parlamentar chegou a chamar o titular da pasta de “moleque travestido de secretário” e “papagaio ensaiado”, ao insinuar que o secretário teria forjado a oitiva do criminoso; e se defendeu das acusações. “Quem conhece a minha vida e o meu trabalho, não só no Maranhão como nos estados onde trabalhei, sabe que eu sempre combati a criminalidade”, disse o deputado.
Vagno Pereira encerrou sua participação no Programa Ponto Final se colocando à disposição da comissão de delegados, responsável pelo inquérito secundário ao assassinato do jornalista Décio Sá, que investiga crimes de agiotagem, envolvendo prefeitos maranhenses. “Se a comissão me convocar, eu vou agora jogar na cara dele [Gláucio] tudo o que ele me disse naquele dia. Eu tenho até medo de ele mandar me matar, mas eu queria a acareação e vê ele mentir na minha frente. Acho que a partir de hoje vou levar uma vida melhor, porque desabafei, e sou uma pessoa de bem”, concluiu o ex-prefeito de Serrano.
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A Operação Rapina V foi deflagrada pela Polícia Federal em parceria com a Controladoria Geral da União (CGU) com objetivo de monitorar saques de dinheiro de programas do Governo Federal, realizados na “boca do caixa” por agentes municipais. Em 2010, os agentes federais investigaram o destino de R$ 4 milhões, sacados irregularmente das contas da Prefeitura de Serrano do Maranhão. Na época, a Delegacia Regional de Combate ao Crime Organizado (DRCCO) da PF prendeu Vagno Pereira, após este ter sacado
R$ 10 mil na agência do Banco do Brasil em Cururupu, do programa Piso de Atenção Básica (PAB) do Fundo Nacional de Saúde (FNS); e divulgou também que o ex-prefeito do município havia sacado ainda R$ 22.600,00 do Fundo de Participação do Município (FPM) para as contas de 10 pessoas, entre elas parentes.
