Pesquisadores duvidam da ‘paternidade’ de SLZ

Por Wilson Lima, do iG:

A capital do Maranhão, São Luís, completa nesta quinta-feira (8) 399 anos sem saber ao certo se é a única cidade brasileira fundada por franceses ou se é mais um município de origem lusitana entre tantos no Brasil. Pesquisadores levantam dúvidas se foi realmente fundada pelo francês Daniel de La Touche. Outra hipótese é Jerônimo de Albuquerque Maranhão, um mameluco português nascido da relação entre um português e uma indígena.

Os primeiros questionamentos surgiram há exatos dez anos com a professora da Universidade Estadual do Maranhão Maria de Lourdes Lauande Lacroix em seu livro “A fundação francesa de São Luís e seus mitos”. Segundo ela e outros pesquisadores ligados à Universidade Estadual do Maranhão (Uema) e à Universidade Federal do Maranhão (UFMA), o aniversário de São Luís passou a ser comemorado dia 8 de setembro somente a partir de 1912.

Busto de Daniel de La Touche na prefeitura

Até então, foram 300 anos sem qualquer tipo de festividade. Os livros de história nunca trataram os franceses como “fundadores” e sim como “invasores”.  Além disso, o 8 de setembro era conhecido em São Luís como “Dia da Natividade de Nossa Senhora”.

No início do século 20, o pesquisador José Ribeiro do Amaral, um dos fundadores da Academia Maranhense de Letras (AML), escreveu o livro “A Fundação do Maranhão” que apontava como marco de fundação da cidade a missa celebrada pelos padres capuchinos franceses quando chegaram à então ilha de Upaon-Açu, em 1612. Oficialmente, os franceses chegaram dia 8 de setembro, mas essa missa aconteceu somente dias depois conforme Maria de Lourdes Lauande Lacroix.

Documentos históricos dos primeiros franceses que chegaram ao Maranhão nunca descreveram o termo “fundação”. Existia sim uma intencionalidade de se fundar a Franca Equinocial e de transformar São Luís em uma cidade. Mas essa intenção nunca saiu do papel. Os portugueses expulsaram os franceses da então Ilha de Upaon-Açu antes dos gauleses colocarem seu plano em prática.

Segundo o documento “História da missão dos padres capuchinhos na Ilha do Maranhão e suas circunvizinhanças”, os franceses chegaram à Ilha de Upaon-açu em julho de 1612, chefiados por Daniel de La Touche. Os gauleses construíram um forte onde hoje está localizado o Palácio dos Leões, sede do governo do Estado. O forte foi batizado de São Luís em homenagem ao “rei menino” Luís XIII. Eles também abriram algumas trilhas em um raio de aproximadamente 30 quilômetros e ergueram alguns galpões improvisados e igrejas de taipa com a ajuda dos índios mas não havia um projeto consistente de construção de uma cidade.

Somente a partir da expulsão dos franceses pelos portugueses na Batalha de Guaxenduba em 1614/1615 é que a então Ilha de Upaon-Açu ganhou um planta elaborada pelo engenheiro-mor português militar Francisco Frias e Mesquita contendo um projeto arquitetônico e o arruamento original da cidade. Esse projeto é hoje o Centro Histórico de São Luís que mantém quase que em totalidade o seu projeto original. Sem casarões, azulejos ou monumentos de origem francesa.

Após expulsarem os franceses, os portugueses mudaram o nome do forte construído pelos franceses para São Felipe e, uma vez que os habitantes da ilha já haviam se acostumado com o nome São Luís, os lusitanos decidiram manter o nome dado pelos franceses ao forte, segundo alguns historiadodores.

A paternidade francesa de São Luís, conforme historiadores como Maria de Lourdes Lauande Lacroix, João Mendonça Cordeiro, entre outros, surge no final do século 19 e início do século 20 como forma de dar uma identidade à já decadente São Luís. Essa ideia da fundação francesa surge também com o título de Atenas Brasileira, alcunha conferida pelos intelectuais da AML pelo fato de São Luís ter sido berço de escritores e historiadores importantes do século 19. “Atenienses alienados, em busca de um presente glorioso como fora no passado a Atenas Brasileira, dominados pelo galicismo, criaram, em 1912, o mito da fundação francesa da cidade de São Luís”, relata Cordeiro.

A visão de que São Luís não foi fundada por franceses não é bem aceita entre os intelectuais de São Luís. Membros da AML como Jomar Moraes, por exemplo, questionam essas análises dos professores da Uema e UFMA afirmando que isso é uma interpretação equivocada da historiografia maranhense. O fato é que há dez anos existe uma discussão sobre qual seria o marco da fundação de São Luís: a construção de um forte ou o planejamento arquitetônico da cidade?